Quando perguntei o que havia de errado, ele ajustou a alça da sua mala de viagem e disse: “Nada. Volto no domingo. Prometo.”
Uma semana antes daquela viagem, ele havia dito algo que frequentemente me voltava à mente mais tarde.
Perguntei o que ele queria dizer.
Ele balançou a cabeça negativamente.
Esse era Gabriel. Ele detestava criar tensão em casa. Era o tipo de homem que preferia assumir os problemas dos outros a deixar que recaíssem sobre sua própria família. Durante anos, ele tentou apaziguar os ânimos com Nick, porque ainda acreditava que era possível conversar com o irmão.
Dois dias depois, Nick voltou para casa sem ele.
Ele bateu na minha porta, com dois policiais atrás dele. No momento em que vi seu rosto, soube que algo terrível tinha acontecido.
“Gabriel desapareceu”, disse ele.
Ele levantou cedo para ir pescar enquanto eu ainda dormia. Por volta das sete horas, uma tempestade começou. Muito rápida. Eu não conseguia enxergar além da varanda. Quando fui olhar, ele tinha sumido.
Meu corpo inteiro enrijeceu.
A polícia vasculhou a floresta, a margem, o lago e os caminhos lamacentos entre a cabana e o cais. Mergulhadores entraram na água. Voluntários percorreram as trilhas. Cães seguiram o rastro até que a chuva o apagou.
Eles não encontraram nada.
Nenhum corpo. Nenhum barco virado. Nenhum tecido rasgado. Nenhuma carteira. Nenhum sangue. Absolutamente nada, o que de alguma forma parecia mais cruel do que encontrar alguma coisa.
Com o tempo, essa explicação se tornou a versão com a qual todos podiam conviver. Gabriel provavelmente tinha saído antes do amanhecer, sido surpreendido pela tempestade, escorregado na beira da água e sido levado pela correnteza.
Um ano depois, ele foi declarado morto.
Assinei os papéis porque minhas filhas precisavam de uma mãe presente, mas nunca acreditei de verdade nisso. Gabriel checou a previsão do tempo antes de ir ao supermercado. Ele tinha pilhas extras na lanterna e cobertores de emergência no carro. Homens assim não costumam ficar presos em tempestades.
Nick insistia que eu tinha que aceitar.
Ele disse que o luto pode levar alguém a criar esperança onde não há nenhuma.
Quanto mais ele dizia isso, menos eu confiava nele, e eu me odiava por me sentir assim em relação a um homem que supostamente também havia perdido o irmão.
Então Olivia encontrou o casaco de Gabriel.
Eu tinha deixado as meninas na casa do Nick enquanto ia ao supermercado. Quando voltei, Olivia entrou no carro e apertou a mochila contra o peito, como se tivesse medo de esmagar alguma coisa.
Assim que chegamos em casa, ela abriu o zíper.
Lá dentro estava o casaco de lona marrom de Gabriel.
Meu coração parou.
Era o mesmo casaco que ele havia levado naquela viagem. Eu sabia disso porque o ajudei a arrumar as malas. Na época, quando a polícia fez o inventário da cabine, o casaco nunca foi encontrado. Presumi que ele o estivesse usando quando caiu na água.
— Onde você conseguiu isso? — perguntei.