PARTE 1
O envelope chegou numa manhã de terça-feira de outubro, deslizado por baixo da porta do meu apartamento enquanto eu dormia. Meu nome estava escrito num papel cor creme com uma caligrafia que eu não reconheci, mas o remetente me deu um nó no estômago: Hospital Memorial Riverside. Dentro havia um bilhete curto que destruiu a distância cuidadosa que eu havia construído do meu passado. “Sr. Davidson, sua ex-esposa Rebecca o indicou como contato de emergência. Ela foi internada e está perguntando por você.”
Três meses se passaram desde que nosso divórcio foi finalizado. Três meses desde que saí do tribunal acreditando estar livre de um casamento que lentamente nos consumiu. Rebecca e eu passamos nosso último ano juntos como estranhos sob o mesmo teto, nos comunicando principalmente por meio de advogados e conversas frias sobre contas, móveis e o que cada um levaria consigo.
A viagem até o hospital pareceu uma viagem no tempo. Cada quilômetro trazia de volta memórias que eu tentara enterrar: Rebecca rindo no nosso primeiro encontro, o jeito como ela me acordava com café e cantando desafinadamente, e o silêncio que acabou se instalando em nossa casa como poeira em móveis que ninguém mais tocava.
Encontrei-a na unidade de cardiologia, sentada perto da janela, com um avental hospitalar que a fazia parecer menor do que me lembrava. Seus cabelos escuros, antes cuidadosamente penteados, estavam soltos sobre os ombros. A confiança que me atraira sete anos antes parecia ter desaparecido, substituída por alguém frágil, cansada e insegura.
“Você veio”, disse ela ao me notar na porta.
Sua voz expressava surpresa e alívio.
“O hospital entrou em contato comigo”, eu disse. “Eles me disseram que você estava perguntando por mim.”
Fiquei perto da porta, sem ter certeza se tinha o direito de me aproximar. Rebecca assentiu lentamente, mexendo nervosamente na ponta do cobertor.
“Eu não sabia quem mais colocar como contato de emergência”, disse ela. “Meus pais faleceram, minha irmã mora do outro lado do país… Acho que os velhos hábitos duram mais do que imaginamos.”
A tensão era palpável entre nós. Éramos duas pessoas que antes compartilhavam tudo, e agora tínhamos dificuldade até para manter a conversa mais simples.
