Em uma semana, eu já entendia a dinâmica da casa.
Arthur, irmão de Eleanor e o homem que me contratara, tinha oitenta e um anos, era viúvo, de olhar penetrante e desconfiado de todos. Ainda caminhava com bengala, mas os funcionários sussurravam que sua saúde estava debilitada.
Sua filha, Vivien, tinha um sorriso doce como mel e olhava para as pessoas com olhos tão frios que me davam arrepios.
Vivien vinha quase todas as tardes, sempre impecavelmente vestida, com pérolas tilintando em seu pescoço, e geralmente era seguida de perto por um advogado.
“Papai, só precisamos da sua assinatura”, ela dizia docemente. “É sobre o plano de cuidados da Eleanor. Encontramos uma instituição mais acessível.”
“Eleanor fica aqui”, respondeu Arthur.
“Papai, seja razoável. Ela mal sabe onde está. E depois que você se for—”
“Ela sabe exatamente onde está, Vivien. Ela entende mais do que qualquer um de vocês imagina.”
Certa tarde, Vivien me viu parada na porta com a bandeja de chá de Eleanor.
“E quem é este?”
“A cuidadora da Eleanor”, respondeu Arthur. “Ela está aqui há um mês.”
“Hum.” Seu olhar percorreu meu corpo lentamente, como o de um gato estudando algo que talvez ataque algum dia. “Que bom.”
Algumas semanas depois, o hospital ligou enquanto eu lia para Eleanor. Pedi licença e saí para o corredor.
Minhas mãos já estavam tremendo antes mesmo de eu responder.
“Senhora, precisamos que Noah volte esta tarde para exames e testes atualizados.”
“Sim”, respondi rapidamente. “Sim, estaremos lá.”
Depois de desligar o telefone, encostei a testa no papel de parede frio e tentei respirar.
Quando me virei, Arthur estava no final do corredor, de roupão, apoiado em sua bengala, observando-me atentamente.
“Quem fica te ligando e fazendo suas mãos tremerem?”, perguntou ele em voz baixa.
Foi então que percebi que, enquanto eu observava seus filhos brigando por sua fortuna, Arthur estava me observando muito mais atentamente do que eu imaginava.
“O hospital”, admiti. “Meu filho precisa de uma cirurgia cardíaca. Urgente.”
“Ah.” A expressão de Arthur suavizou-se. “Sinto muito.” Ele bateu com a mão no próprio peito. “Meu coração também está falhando. Logo, logo, eu mesmo precisarei de um cuidador.”
“Sinto muito, senhor. Se houver algo que eu possa fazer—”
“Arthur”, corrigiu ele gentilmente. “Pode me chamar de Arthur.”