Então ela sussurrou: “No mês passado recebi o diagnóstico. Câncer de mama. Estágio dois.”
Aquelas palavras me atingiram como um soco no estômago.
Eu me joguei numa cadeira. Não sabia o que dizer.
‘Não tenho mais seguro, Nadine. E… e estou com medo.’ Ele soluçou. ‘Não estou pedindo seu perdão. Mas você é a única família que me resta.’
O quarto parecia menor, como se todo o ar tivesse sido sugado. Esfreguei o rosto e tentei assimilar tudo.
Minha primeira reação foi de ceticismo. Será que ela estava me manipulando? Será que estava usando a doença para me atrair de volta? Mas, enquanto a observava desmaiar, percebi puro medo em sua voz. Ela não estava fingindo.
E então eu percebi algo: guardar raiva por seis anos não me curou. Só me fortaleceu.
— Vou te ajudar a entrar em tratamento — eu disse finalmente. — Mas não vou te dar apoio emocional, Seraphina. Isso é algo que você precisa resolver sozinha.
Ele respirou fundo, a respiração irregular. “Obrigado, Nadine. Muito obrigado.”
Passamos a hora seguinte conversando – não exatamente como irmãs, mas como duas pessoas feridas tentando juntar os cacos. Anotei os dados dela, liguei para algumas agências e marquei uma consulta com uma organização de apoio a pacientes com câncer para o dia seguinte.
Nos meses seguintes, continuei envolvido. Não constantemente. Não como antes. Mas eu a levava aos tratamentos, ajudava-a com a papelada e me certificava de que ela tivesse um lugar para ficar.
Aos poucos, nossas conversas deixaram de ser sobre o passado e passaram a ser sobre o presente. Sobre a vida. Sobre segundas chances.
Certa noite, quando eu estava em frente ao seu pequeno apartamento alugado, ela olhou para mim com lágrimas nos olhos.
‘Eu nunca vou merecer seu perdão, Nadine’, ela sussurrou. ‘Mas obrigada por não me deixar afogar.’