‘Você se arrepende?’, perguntei então, sem saber exatamente por quê.
Ernesto apoiou as mãos na mesa.
‘Fiz o que tinha que fazer’, disse ele. ‘Assim como você.’
Saí para a rua, com o sol de Madri brilhando no meu rosto. Abri o envelope em um banco de pedra. Contas, documentos, números.
Um futuro completo dobrado em papel.
Pensei em Javier em sua cela fria. Em Lucía, presa entre advogados e processos. Em María, dois anos antes, chorando com uma mala na mão enquanto o marido lhe dizia que se apaixonara por sua melhor amiga. Em María debaixo da ponte, invisível.
Nada disso existia mais.
Eu havia escolhido um papel perigoso e o desempenhei até o fim. Não me senti nem herói nem vítima.
Apenas alguém que aprendeu a usar o lugar onde outros pensavam que ela estava morta.
Guardei o envelope, levantei-me e comecei a caminhar pela Castellana, entre homens de negócios e turistas. Ninguém sabia quem eu era.
Ninguém sabia o que eu tinha feito.
E, pela primeira vez, essa invisibilidade me pertenceu.