Dois anos depois de meu marido ter entrado com o pedido de divórcio – e se casado com minha melhor amiga apenas três meses depois – eu dormi debaixo de uma ponte sobre o rio Manzanares. O concreto úmido era meu teto, um cobertor gasto, minha única posse. Madri continuava girando acima da minha cabeça: carros, luzes, risadas distantes vindas de terraços onde, não muito tempo atrás, eu também brindara com vinho branco e planos para o futuro.
Naquela noite de fevereiro, o frio penetrou até meus ossos. Eu estava encolhida contra minha mochila, tentando ignorar a fome, quando ouvi um carro virar à direita acima de mim. Os faróis filtraram-se pelas frestas da ponte, um feixe de luz branca na escuridão cinzenta.