Ele me pediu para repetir sua última instrução. Confie nele.
O frio do funeral ainda persistia em minha pele quando me sentei no escritório do advogado na manhã seguinte.
Marlene e seus irmãos já estavam lá, dispostos como um júri. Ela cruzou as pernas e inclinou a cabeça na minha direção.
“Que generosidade a sua em vir”, disse Marlene. “Quando pretende sair da casa do nosso pai?”
Juntei as mãos para evitar que tremessem.
Uma pequena caixa de madeira estava sobre a mesa. Não havia nenhum testamento visível.
O advogado colocou os óculos no nariz e olhou de um de nós para o outro.
“Russell pediu que eu seguisse suas instruções em ordem.”
Marlene deu uma risadinha suave.
“A empregada doméstica ganha uma lembrança.”
O advogado empurrou a caixa na minha direção.
“Ele queria que você recebesse isso primeiro.”
Dentro da caixa não havia chaves, dinheiro, joias, apenas uma carta dobrada e uma fotografia antiga.
Marlene bufou.
“Pronto. A última piadinha do papai.”
Peguei a fotografia. Mostrava-me no jantar de caridade, segurando uma bandeja, no meio de uma gargalhada. Não me lembrava de ninguém a ter tirado, mas o logotipo da instituição de caridade estava discretamente impresso no canto.
A carta foi escrita com a caligrafia cuidadosa de Russell. Desdobrei-a com as duas mãos.
“O que está escrito?”, perguntou Marlene.
Continuei lendo. Minha visão ficou embaçada.
“O que está escrito?”, ela perguntou bruscamente, estendendo a mão por cima da mesa.
O advogado a deteve gentilmente.
“A carta é privada. Seu pai foi claro.”