Não havia nome nem endereço do remetente na caixa de papelão reforçado. Curiosa e um pouco desconfiada, levei a caixa para a mesa da cozinha. Quando a abri com a tesoura e dobrei as abas, vi, para minha grande e imediata surpresa, exatamente os mesmos vestidos rosa e suéteres de tricô que eu havia enviado no ano passado, durante os dias escuros do outono. Mas eles pareciam completamente diferentes: cheiravam a lavanda, estavam mais limpos do que quando os doei, passados com o máximo cuidado e carinho, e estavam lindamente amarrados com uma fita de cetim azul-clara.
Logo abaixo daquela pilha de roupas coloridas, cuidadosamente dobradas e embrulhadas em um pedaço de papel de seda branco, jazia um pequeno patinho amarelo de crochê…
Prendi a respiração audivelmente no meu avental. Tapei a boca com a mão e recuei. Aquele patinho. Aquele patinho amarelo de lã com os olhos de botão pretos. Não o via há anos e presumi que o tinha perdido para sempre durante uma das minhas muitas mudanças.
Era uma relíquia de toda a minha vida — um presente muito especial, feito à mão pela minha falecida mãe, que ela tricotou durante as noites em que estava grávida de mim. De alguma forma, sem que eu soubesse, aquela coisa enorme deve ter rolado de uma caixa de recordações antiga e caído bem no meio das roupas doadas na caixa de envio, enquanto eu empacotava tudo em meio a uma névoa densa e confusa de tristeza devastadora.
Minhas mãos tremiam violentamente enquanto eu desdobrava cuidadosamente o pequeno bilhete branco, dobrado com esmero, que estava sob o patinho:
“Querido(a) desconhecido(a), você me deu estas lindas roupas num momento em que eu realmente não tinha nada, apenas as roupas no meu tapete e uma criança apavorada ao meu lado. Você não fez perguntas nem me julgou. Prometi a mim mesma, naquele frio e vazio centro, que as devolveria assim que pudesse me reerguer, para que pudessem manter alguém protegido e aquecido. Essas roupas mantiveram minha filha aquecida e segura durante todo o inverno. Quando as desembalamos, encontrei este pequeno item de crochê bem no fundo da caixa. Instintivamente, soube que não era apenas um brinquedo. Senti que devia ser algo de valor inestimável para você. Por isso, guardei-o com cuidado durante todo esse tempo e esperei até ter condições financeiras para resolver a situação de forma adequada e gentil, para lhe agradecer por tê-lo feito – por sua inesperada gentileza e pela luz que você trouxe num momento em que o mundo estava na mais completa escuridão e ninguém mais parecia se importar comigo. – Nura…”
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A princípio, nem percebi que estava chorando, até que as primeiras lágrimas salgadas, com um leve toque, danificaram a tinta do papel e as letras borraram. Caí de joelhos na cozinha, abracei o pequeno patinho amarelo com força contra o peito e chorei até expelir os últimos resquícios da dor profunda do luto. Minha mãe não estava mais aqui, mas através desse pequeno objeto acidental, ela havia me alcançado, afinal, justamente no dia em que o aniversário de sua morte se aproximava.
O Telefone
Na parte inferior do bilhete cuidadosamente escrito, havia um número de telefone em letras minúsculas. Peguei meu celular da mesa. Meus dedos tremiam tanto que tive muita dificuldade para digitar os números certos. O telefone tocou uma vez. Duas vezes. Todos os números sumiram antes do terceiro toque.
“Olá?” Sua voz soava clara, mas com um inconfundível tom de leve tensão.
“Nura?” sussurrei, com a garganta apertada pela emoção.