Então meu celular vibrou com uma mensagem do Jesse: “Como está o plano de aposentadoria?”. Evie estava sorrindo para a caneca que eu tinha feito para ela. Quando ela perguntou se estava tudo bem, eu disse que era só o Jesse sendo bobo. Depois respondi: “Tudo ótimo. Quando ela se for, estou tranquilo”. Me odiei por dois segundos. Depois bloqueei o celular e fingi que dois segundos de vergonha eram suficientes.
Três manhãs depois, Evie deixou cair uma colher no chão da cozinha. Virei-me do fogão e a vi agarrada à bancada. Sua boca se mexia, mas nenhuma palavra saía. “Ei. Olha para mim”, eu disse. Seus joelhos cederam e eu a segurei antes que caísse no chão. No hospital, um médico com olhar cansado me encontrou e disse que seu coração havia parado. Tudo o que consegui sussurrar foi: “Ela só estava comendo geleia”.
O funeral foi três dias depois. Eu vestia o casaco que ela tinha me comprado. Claire, sobrinha de Evie, notou imediatamente. “Claro que você estava usando isso”, disse ela. Eu disse que estava frio. Ela balançou a cabeça. “Não. Você ainda sabe como usá-la.” Eu disse que era o marido dela, mas Claire respondeu: “Você era o projeto dela.” Isso doeu mais do que ser chamado de interesseiro, porque uma parte de mim sabia que era verdade. Mesmo assim, por baixo da vergonha, um pensamento continuava a me perturbar: o testamento.
Na manhã seguinte, sentei-me em frente ao Sr. Carson, advogado de Evie. Ele me disse que a casa ficaria para Claire. Suas economias seriam doadas para a instituição de caridade da igreja. Senti um nó na garganta. “Ela não me deixou nada?” O Sr. Carson ajeitou os óculos. “Ela deixou um item pessoal para você.” “Um cheque?”, perguntei. “Uma caixa de sapatos”, respondeu ele.