Salomé virou lentamente a cabeça na direção da mulher e falou com uma calma que parecia quase perturbadora para alguém da sua idade.
‘Mas eu me lembro de coisas que os adultos se esqueceram de perguntar’, respondeu a menina baixinho.
O silêncio voltou a preencher a pequena sala, mais pesado do que antes.
O coronel Méndez inclinou-se ligeiramente para a frente, de modo que seus olhos ficassem na mesma altura dos de Salomé, e estudou seu rosto com o mesmo instinto que desenvolvera ao longo de décadas interrogando criminosos.
O que ele viu ali não foi medo.
Era uma certeza.
— O que exatamente você disse à sua mãe? — perguntou Méndez.
Salomé olhou primeiro para Ramira, como se pedisse permissão, e sua mãe assentiu imediatamente, segurando a borda da mesa com as mãos trêmulas.
A garota respirou fundo.
‘O homem que morreu naquela noite… ele não estava sozinho em casa’, disse ela suavemente.
As palavras caíram na sala como uma pedra que cai em águas calmas.
Ramira fechou os olhos por um instante, como se estivesse revivendo a noite que destruira sua vida.
‘Eu contei para eles’, ela sussurrou. ‘Mas ninguém me ouviu.’
Méndez levantou-se lentamente, seus pensamentos já retornando ao processo que parecia estar tão completo.
Havia uma testemunha que afirmou ter visto Ramira sair de casa.
Impressões digitais na faca.
Sangue em suas roupas.
Todas as peças se encaixam perfeitamente.
Talvez até perfeito demais.
— Quem mais estava lá? — perguntou Méndez à garota, cautelosamente.
Salomé olhou-o diretamente nos olhos, e algo em seu olhar fez com que o experiente oficial se sentisse inesperadamente desconfortável.
‘Meu tio Mateo’, disse ela.
Ramira hapte naar adem.
O nome lhe pareceu um raio em céu azul, pois Mateo era o irmão mais novo de seu marido, o homem que havia declarado durante a investigação que só chegara ao local após o crime.
— Não… — sussurrou Ramira, enquanto balançava a cabeça lentamente.
Mas Salomé prosseguiu.
‘Eu o vi naquela noite’, disse a menina baixinho. ‘Ele disse que eu tinha que ficar no meu quarto e não podia sair, porque havia adultos conversando.’
A assistente social endireitou-se imediatamente.
‘Salomé, você nunca mencionou isso durante a investigação’, disse ela, com a voz agora tensa.
Salomé baixou ligeiramente o olhar.
— Ninguém me perguntou o que eu vi — respondeu ela secamente.
Essas oito palavras deixaram o ar da sala mais pesado.
Mendez esfregou o queixo lentamente.
Ele se lembrou de ter lido que a menina estava dormindo durante o incidente.
Essa suposição foi aceita sem questionamento.
— O que exatamente você viu? — perguntou ele novamente.
Salomé respirou fundo mais uma vez.
“Acordei porque eles estavam discutindo”, disse ela. “Meu pai estava gritando, e o tio Mateo gritava ainda mais alto.”
As mãos de Ramira começaram a tremer novamente, mas desta vez de choque em vez de desespero.
— Sobre o que eles estavam discutindo? — perguntou Méndez.
— Dinheiro — respondeu Salomé. — E algo que meu pai chamava de traição.
O coronel sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
O relatório oficial afirmou que a vítima, marido de Ramira, foi atacada repentinamente e sem aviso prévio.
Não se faz menção a nenhum argumento.
Em nenhum momento foi mencionado anteriormente que Mateo estava presente.
— O que aconteceu depois? — perguntou Méndez lentamente.
A voz de Salomé ficou ainda mais suave.
“Ouvi algo cair… algo parecido com uma cadeira”, disse ela. “Então meu pai gritou de novo, e depois disso tudo ficou em silêncio novamente.”
Ramira cobriu a boca com a mão; as lágrimas voltaram a escorrer por suas bochechas.
‘Ai, meu Deus…’, ela sussurrou.
Salomé olhou para a mãe e continuou falando calmamente.
“Quando abri um pouco a porta, vi o tio Mateo com a faca na mão”, disse a menina.
A sala ficou congelada.
Até mesmo os guardas prenderam a respiração por um instante.
“Ele me viu olhando”, continuou Salomé. “Ele disse que se eu dissesse alguma coisa, desapareceria para sempre.”
Ramira recostou-se na cadeira e começou a tremer violentamente.
Cinco anos.
Durante cinco anos, ela esteve convencida de que sua filha havia dormido durante o pesadelo.
Durante cinco anos, a criança carregou a verdade consigo sozinha, sem saber o que havia acontecido.
Méndez já estava pensando nas consequências legais que se desenrolavam diante dele.
Se o depoimento da garota estiver correto, toda a investigação foi baseada em uma cronologia manipulada.
Mateo posicionou Ramira na cena do crime, enquanto ocultava sua própria presença.
E as impressões digitais de Ramira na faca de repente adquiriram um significado arrepiante.
“Ele me obrigou a pegá-lo”, sussurrou Ramira de repente, lembrando-se de algo que havia enterrado sob o trauma por anos. “Ele disse que, se eu não o fizesse, faria algo com Salomé.”
A expressão no rosto do coronel se tornou mais tensa.
Tudo começou a fazer sentido.
Mateo havia adulterado a cena do crime antes de chamar a polícia.
E o sistema aceitou a versão dele porque ela coincidia com as evidências.
Evidências de que ele havia armado tudo.
— Por que você está me dizendo isso agora? — perguntou a assistente social a Salomé, que ainda tentava compreender o que estava ouvindo.
A menina olhou para as suas mãozinhas por um instante.
— Porque eu o vi novamente ontem — disse ela suavemente.
Todos os adultos na sala sentiram um arrepio percorrer o corpo.
— Onde? — perguntou Méndez imediatamente.
— Do lado de fora do orfanato — respondeu Salomé. — Ele veio de carro e ficou de olho no portão.
Ramira levantou-se abruptamente mais uma vez, com pânico estampado no rosto.
“Ele está me matando”, ela gritou. “Ele quer que a verdade permaneça escondida para sempre!”
Os guardas olharam para Méndez em busca de instruções.
O coronel permaneceu em silêncio por alguns segundos, com os olhos fixos na menina que estava ao lado da mesa.
Após trinta anos na administração penitenciária, ele havia aprendido uma coisa acima de tudo.
As crianças raramente mentem sobre o medo.
E Salomé não falava como uma criança inventando uma história.
Ela falou como se finalmente estivesse revelando um segredo que se tornara pesado demais para carregar sozinha.
Méndez se virou para os guardas.