O grito de Ramira ecoou contra as paredes frias de concreto da sala de visitas e tocou algo profundo em todos os presentes.

Salomé virou lentamente a cabeça na direção da mulher e falou com uma calma que parecia quase perturbadora para alguém da sua idade.

‘Mas eu me lembro de coisas que os adultos se esqueceram de perguntar’, respondeu a menina baixinho.

O silêncio voltou a preencher a pequena sala, mais pesado do que antes.

O coronel Méndez inclinou-se ligeiramente para a frente, de modo que seus olhos ficassem na mesma altura dos de Salomé, e estudou seu rosto com o mesmo instinto que desenvolvera ao longo de décadas interrogando criminosos.

O que ele viu ali não foi medo.

Era uma certeza.

— O que exatamente você disse à sua mãe? — perguntou Méndez.

Salomé olhou primeiro para Ramira, como se pedisse permissão, e sua mãe assentiu imediatamente, segurando a borda da mesa com as mãos trêmulas.

A garota respirou fundo.

‘O homem que morreu naquela noite… ele não estava sozinho em casa’, disse ela suavemente.

As palavras caíram na sala como uma pedra que cai em águas calmas.

Ramira fechou os olhos por um instante, como se estivesse revivendo a noite que destruira sua vida.

‘Eu contei para eles’, ela sussurrou. ‘Mas ninguém me ouviu.’

Méndez levantou-se lentamente, seus pensamentos já retornando ao processo que parecia estar tão completo.

Havia uma testemunha que afirmou ter visto Ramira sair de casa.

Impressões digitais na faca.

Sangue em suas roupas.

Todas as peças se encaixam perfeitamente.

Talvez até perfeito demais.

— Quem mais estava lá? — perguntou Méndez à garota, cautelosamente.

Salomé olhou-o diretamente nos olhos, e algo em seu olhar fez com que o experiente oficial se sentisse inesperadamente desconfortável.

‘Meu tio Mateo’, disse ela.