O grito de Ramira ecoou contra as paredes frias de concreto da sala de visitas e tocou algo profundo em todos os presentes.


Meses depois, Salomé prestou depoimento em um pequeno tribunal.

Ela estava mais velha agora.

Não há anos.

Mas na maneira como ela se comportou.

Pela maneira como sua voz não tremia.

Porque ela já não baixava a cabeça quando os adultos falavam com ela.

Porque ela havia aprendido algo que a maioria das pessoas nunca aprende:

Essa verdade, uma vez dita, transforma tudo ao seu redor.

‘Pode contar ao tribunal o que viu naquela noite?’, perguntou o promotor público em tom calmo.

Salomé assentiu com a cabeça.

Ela não olhou para Mateo.

Isso não era necessário.

“Eu vi meu tio segurando a faca”, disse ela.

Seguiu-se um silêncio.

Pesado.

Final.

Porque desta vez, ninguém a rejeitou.

Ninguém presumiu nada.

Ninguém a considerava jovem demais para ser importante.


Mateo confessou dois dias depois.

Não de uma forma dramática.

Não com emoção.

Apenas uma declaração, proferida com a mesma calma que demonstrara no dia de sua prisão.

“Não deveria ter terminado assim”, disse ele.

Mas esse era de fato o caso.

E no fim, era só isso que importava.