Meses depois, Salomé prestou depoimento em um pequeno tribunal.
Ela estava mais velha agora.
Não há anos.
Mas na maneira como ela se comportou.
Pela maneira como sua voz não tremia.
Porque ela já não baixava a cabeça quando os adultos falavam com ela.
Porque ela havia aprendido algo que a maioria das pessoas nunca aprende:
Essa verdade, uma vez dita, transforma tudo ao seu redor.
‘Pode contar ao tribunal o que viu naquela noite?’, perguntou o promotor público em tom calmo.
Salomé assentiu com a cabeça.
Ela não olhou para Mateo.
Isso não era necessário.
“Eu vi meu tio segurando a faca”, disse ela.
Seguiu-se um silêncio.
Pesado.
Final.
Porque desta vez, ninguém a rejeitou.
Ninguém presumiu nada.
Ninguém a considerava jovem demais para ser importante.
Mateo confessou dois dias depois.
Não de uma forma dramática.
Não com emoção.
Apenas uma declaração, proferida com a mesma calma que demonstrara no dia de sua prisão.
“Não deveria ter terminado assim”, disse ele.
Mas esse era de fato o caso.
E no fim, era só isso que importava.
O veredicto foi proferido seis meses depois daquela noite na sala de visitas.
Aguardando seis meses.
Seis meses com o medo constante de que algo ainda pudesse dar errado.
Durante seis meses, aprendi a reconstruir a esperança – e isso me aterrorizava.
Ramira estava de pé no tribunal quando o juiz falou.
Suas mãos estavam determinadas.
Ela não tinha esse tipo de coração.
“Este tribunal decide que a condenação de Ramira Fuentes foi baseada em provas incompletas e manipuladas”, disse o juiz.
Cada palavra era como se uma pedra fosse retirada de seu peito.
Este tribunal, por este meio, anula a sentença anterior.
Ramira fechou os olhos.
As lágrimas agora corriam livremente.
Não está escondido.
Sem limite.
Porque é a primeira vez em cinco anos…
Ela não era mais prisioneira.
Ela saiu do tribunal em direção ao sol, que lhe pareceu estranho.
Luz muito forte.
O aberto.
Liberdade em excesso.
E por um instante ela hesitou.
Porque a liberdade, depois de ter sido tirada por tanto tempo, pode ser tão opressiva quanto o encarceramento.
Então ela a viu.
Salomé.
A poucos passos de distância.
Aguardar.
Não funciona.
Não grite.
Basta esperar, como ela havia aprendido ao longo de todos aqueles anos.
Ramira deu um passo à frente.
E depois mais uma.
E então ela fugiu.
Superando uma distância que, na realidade, nunca envolveu o espaço.
Ela caiu de joelhos e abraçou a filha, como se pudesse recuperar todos os momentos perdidos daquela forma.
‘Estou aqui’, ela sussurrou com lágrimas nos olhos. ‘Estou aqui agora.’
Salomé a abraçou com força.
‘Eu sabia que você voltaria’, disse ela suavemente.
E desta vez…
Ramira acreditou nisso.
Passaram-se semanas.
Depois, meses.
A vida não voltou a ser como era antes.
Isso não foi possível.
Muita coisa havia se quebrado.
Muita coisa havia mudado.
Mas algo novo começou a crescer em seu lugar.
Algo mais tranquilo.
Algo mais forte.
Ramira encontrou um pequeno apartamento.
Nada se comparava à casa que ela havia perdido.
Mas tinha janelas.
E luz.
E havia espaço para duas pessoas que aprenderam a conviver novamente.
Eles conversavam frequentemente um com o outro.
Às vezes, trata-se do passado.
Às vezes não se trata de absolutamente nada.
Às vezes, simplesmente não parecia mais tão pesado ficar sentado em silêncio.
Pois o silêncio, sem medo, se transforma em algo totalmente diferente.
Haverá paz.
Naquela noite, depois que Salomé adormeceu, Ramira ficou de pé junto à janela.
Ela contemplou um mundo que outrora seguira em frente sem ela.
Um mundo que agora, lenta mas seguramente, estava abrindo espaço para ela novamente.
Ela pensou nos anos que havia perdido.
A dor.
O silêncio.
A injustiça.
E então ela pensou em outra coisa.
O momento em que tudo mudou.