“Harper”, disse ele finalmente, com a voz agora mais baixa, “eu ia esperar até amanhã, mas meu investigador encontrou algo. Arthur me pediu para investigar Eleanor antes de morrer.”
“O pai estava investigando-a?”
“Sim. E Arthur não foi o primeiro marido dela. Foi o terceiro. Os dois maridos anteriores morreram após problemas súbitos de saúde. Ambos deixaram para ela um patrimônio considerável. Arthur foi o primeiro a usar um fundo fiduciário cego.”
O corredor parecia estar inclinado.
“Você está dizendo que ela os matou?”
“Estou dizendo que existe um padrão, e Arthur percebeu isso. Ele me disse que estava lidando com o problema da Eleanor pessoalmente. Ele também disse que ia deixar um mapa para você. Você encontrou alguma coisa?”
“Não.”
“Observe com mais atenção. Seu pai era metódico. Se ele soubesse que estava em perigo, não a deixaria desprotegida.”
Desliguei o telefone e fui direto para o escritório. O cômodo estava exatamente como meu pai o havia deixado: estantes até o teto, o grande globo terrestre no canto, a poltrona de couro perto da lareira. Um mapa. Meu pai usava essa palavra por um motivo.
Revirei tudo. Gavetas da escrivaninha. Livros-razão. Estantes. Atrás de fotos emolduradas. Horas se passaram. O sol se pôs. Finalmente, sentei-me no tapete, exausta, encarando a lareira. Meu pai costumava sentar-se ali por horas quando estava pensando.
Rastejei em direção à lareira e passei os dedos pelos tijolos. Perto da parte inferior direita, atrás da grelha de ferro, um tijolo se moveu. Ouviu-se um leve estalo.
Prendi a respiração.
Retirei o bloco de concreto, revelando um compartimento secreto. Dentro havia um envelope lacrado e um pequeno pen drive prateado.
O envelope estava endereçado a mim, com a letra do meu pai.
Minhas mãos tremeram quando o abri.
Minha querida Harper,
Se você está lendo isto, é provável que Eleanor tenha tentado tomar a casa e Benjamin tenha ativado o fideicomisso. Sinto muito por não ter podido lhe contar tudo enquanto eu estava viva. Ela estava me vigiando de perto demais, e eu precisava que ela acreditasse que tinha o controle.
Uma lágrima caiu sobre o papel enquanto eu continuava lendo.
Minha doença não é um mistério, minha corajosa menina. Descobri a verdade há um ano.
Ela está me envenenando.
A carta escorregou das minhas mãos.
Meu pai sabia que ia ser morto.
E ele ficou tempo suficiente para me proteger.
Então a porta da frente fez um clique.
Alguém o havia destrancado.
Havia alguém dentro da casa.
Parte 3
O pânico me invadiu. Peguei a carta e o pen drive, e em seguida arranquei o pesado atiçador de lareira de latão. Passos lentos ecoaram pelo corredor. Tranquei-me no escritório, fui até a escrivaninha e conectei o pen drive ao meu laptop.
O pen drive abriu em pastas organizadas por data. Cliquei em uma de quatro meses atrás. Apareceu um vídeo em preto e branco, filmado por uma câmera escondida na cozinha. Meu pai estava sentado na ilha, magro e cansado, lendo um jornal. Eleanor entrou vestindo um roupão de seda, colocou água quente em uma xícara, olhou por cima do ombro, tirou um pequeno frasco do bolso e adicionou algumas gotas de um líquido transparente ao chá. Mexeu, escondeu o frasco e levou a xícara até meu pai, dando-lhe um beijo na testa.
Tapei a boca para impedir que chorasse.
Ele sabia.
Ele aceitou a xícara mesmo assim.
Meu pai a fez pensar que estava ganhando para que ela deixasse provas para trás.
Abri outra pasta intitulada “Financeiro”. Ela continha registros de contas offshore, e-mails descartáveis, transferências e capturas de tela mostrando que Eleanor vinha movimentando dinheiro das contas comerciais do meu pai há anos.
Então a maçaneta da porta do escritório fez barulho.
“Harper”, chamou Eleanor docemente do outro lado. “Eu sei que você está aí dentro. Seja uma boa menina e abra a porta.”
Apertei o atiçador de lareira com força.
“Saia da minha casa. Vou chamar a polícia.”
“Se você fizer isso, vou contar a eles sobre os livros contábeis da empresa. Aqueles que mostram que você estava roubando do seu pai.”
“Você voltou por algum motivo”, eu disse, me esforçando para que minha voz não tremesse. “O que é?”
Ela riu baixinho.
“Seu pai me disse uma vez que tinha uma reserva de emergência escondida na alvenaria. Quero o que ganhei. Abra a porta, ou vou pegar um pé de cabra.”
Olhei para a tela do laptop, onde o vídeo estava pausado no momento em que Eleanor colocava veneno no chá.
Eu não ia mais me esconder.
Fechei o laptop, caminhei até a porta e a destranquei.
Eleanor ficou ali sorrindo, até que viu o atiçador de lareira na minha mão.
“Você tinha razão”, eu disse friamente. “Papai escondeu alguma coisa na alvenaria. Mas não era dinheiro.”
Mostrei a unidade USB.