Meu nome é Maya (31F). Minha filha, Lily, tem seis anos – ela é o tipo de criança que transforma uma caixa de papelão em um foguete e um pincel em uma varinha mágica. Há um ano, casei-me com Aaron (27M). Ele é paciente, engraçado e realmente o tipo de pai que se ajoelha no chão para construir castelos. A mãe dele, Patricia, é… uma história à parte. Se o amor fosse um cinto, ela o chamaria de compromisso. Se limites fossem uma porta, ela os chamaria de muro. Ela nunca gostou do fato de eu ser mais velha que Aaron. Já ouvi comentários tão melosos que dão cárie: “Que escolha adulta”, “Quatro anos é praticamente uma geração na sua idade”, “Não admira que você esteja tão cansada, querida”.
No inverno passado, um cano de água estourou e destruiu o antigo cantinho de brincar da Lily. O seguro cobriu parte dos custos, mas o Aaron queria fazer direito: um piso macio de cortiça, uma estante baixa com cestos para blocos de montar e tinta, uma parede de lousa no formato de uma cordilheira e luzes de cordão em zigue-zague para criar um ambiente aconchegante. Chamamos o espaço de “Estúdio da Lily”, e ela ficava girando lá dentro, absolutamente convencida de que artistas precisam girar para pensar.
O dia em que tudo deu errado foi comum, daquele jeito tedioso que a gente espera de segurança. Eu tinha levado a Lily para a aula de dança, ido ao supermercado e voltado para casa para colocar a sopa no fogão. Quando abri a porta dos fundos, fui surpreendida por um cheiro azedo e sulfuroso, como se mil fósforos tivessem sido acesos em um porão úmido. O cheiro não apenas pairava no ar; ele persistia.
Meu primeiro pensamento foi gás, mas os detectores não emitiram nenhum som. Segui o cheiro pelo corredor. A porta do estúdio estava fechada. Empurrei-a e entrei em um pesadelo.
Uma gosma amarela e viscosa cobria os montes de giz como se alguém os tivesse pintado com alguma doença. O chão de cortiça estava repleto de crateras úmidas e turvas. As cestas — com seus lápis de cor, os móveis da casa de bonecas, a pequena tartaruga de cerâmica que ela fizera na escola — estavam salpicadas e pingando. E lá em cima, bem na entrada da abertura, vi cascos brancos e irregulares presos entre as rachaduras, escorrendo.
Demorei um pouco para perceber: ovos — dezenas deles — atirados contra as paredes, pressionados contra o tapete, entupidos nas saídas de ar, espremidos dentro dos brinquedos. O aquecimento tinha estado ligado no mínimo a manhã toda; o cheiro tinha impregnado o ambiente.