A partir daquele momento, tornei-me sua cuidadora. Aprendi a trocar as bolsas de soro, a fazê-lo engolir duas colheres de sopa e a dormir sentado numa cadeira de plástico sem reclamar. Eu o lavava. Lia para ele quando seus olhos estavam cansados demais para focar. Segurava sua mão quando ele tremia de dor.
Sua esposa terminou os papéis do divórcio às pressas. Eu não assinei nada. Não me opus a nada. Apenas fiquei.
Ele faleceu antes que o divórcio fosse finalizado.
No funeral, ela vestia preto e chorou alto novamente. As pessoas cochichavam sobre sua força, sobre o quão difícil aquilo devia ter sido para ela. Eu fiquei em silêncio no fundo, segurando com força o último cachecol que eu havia enrolado no pescoço do meu filho quando seu corpo já não conseguia regular a própria temperatura.
Uma semana depois, o advogado ligou.
Como o divórcio ainda não havia sido finalizado, legalmente falando, tudo ficou com ela.
A casa. As economias. As contas.
Não me opus a isso.
Lembrei a mim mesma que dinheiro nenhum o traria de volta. Arrumei suas coisas devagar e com cuidado, dobrando suas roupas como se ele ainda pudesse precisar delas.

Duas semanas depois, meu telefone tocou.
Ela gritou.