Mas desde que voltei para a cidade, ele começou a ligar quase toda semana.
Sua voz era sempre amigável, mas suas perguntas me deixavam desconfortável.
“Como é o apartamento?”, perguntou ele. “O aluguel deve ser difícil de pagar para quem vive de aposentadoria.”
“Estou conseguindo lidar com a situação.”
Você já organizou seus documentos? Seu testamento? Suas informações bancárias? Uma mulher que mora sozinha na sua idade precisa se preparar para essas coisas.
Forcei minha voz a permanecer educada.
“Estou bem, Raymond.”
“Sabe, eu costumava visitar a tia Margaret o tempo todo antes de ela falecer. Eu a ajudava a administrar suas finanças e assuntos pessoais. Família deve cuidar da família.”
A maneira como ele disse isso fez com que meu café de repente ficasse com um gosto amargo.
“Isso foi muito gentil da sua parte”, respondi. “Mas preciso me arrumar para o trabalho.”
Encerrei a chamada antes que ele pudesse perguntar qualquer outra coisa.
O hospital cheirava a desinfetante, remédios e à ansiedade silenciosa que parecia residir permanentemente entre suas paredes.
Naquela manhã, empurrei meu carrinho pelo longo corredor, verificando os números dos quartos e as fichas dos pacientes.
Eu já estava exausto, e ainda nem eram dez horas.
Quarto 220.
Um novo paciente foi internado para receber cuidados de longa duração.
Abri a porta, entrei e dei uma olhada no mapa.
O primeiro nome me fez prender a respiração.
Thomas.
Então eu vi o sobrenome abaixo.
Apertei a pasta com força nas minhas mãos.
Não podia ser ele.
Devia haver centenas de homens com esse nome.
Mas quando levantei os olhos para o paciente deitado na cama, reconheci-o imediatamente.
Cinquenta e seis anos se passaram, mas eles não apagaram o rosto que eu me lembrava.
Thomas estava mais magro agora.
Sua pele estava pálida, e a doença havia deixado olheiras profundas sob seus olhos.
Mas aqueles olhos ainda eram os mesmos que me viram embarcar num ônibus tantos anos atrás.
Ele olhou para mim e sorriu como se já estivesse me esperando.
“Olá, Nancy”, disse ele suavemente.
Durante alguns segundos, fiquei sem conseguir falar.
Eu estava ao lado da cama dele, segurando um medidor de pressão arterial, sentindo como se toda a minha vida tivesse me seguido até aquele quarto de hospital.
“Thomas”, sussurrei finalmente. “Meu Deus. Thomas.”
Depois daquele dia, passei a encontrar motivos para visitar o quarto dele em todos os meus turnos.
Às vezes eu verificava a medicação dele.
Às vezes eu lhe trazia água.
Às vezes, eu simplesmente me sentava ao lado dele depois que minhas tarefas terminavam.
Thomas me disse que nunca havia se casado.
Confessei que também não havia me casado.
Rimos dos nossos cabelos grisalhos, das nossas dores nos joelhos e dos sonhos tolos que um dia compartilhamos.
Outras vezes, ficávamos sentados em silêncio, confortáveis de uma forma que fazia com que as décadas perdidas entre nós parecessem menores.
“Você ainda toma café puro?”, perguntou ele certa tarde.
“Eu faço.”
“Eu sabia que você faria isso.”
Havia algo de incomum em sua calma.
Muitos pacientes com doenças graves estavam assustados, irritados ou sobrecarregados.
Thomas parecia tranquilo.
Ele se comportava como alguém que esperava há muito tempo por um último acontecimento.
Certa manhã, ele me fez uma pergunta cuidadosa.
Nancy, você tem algum familiar por perto? Alguém que possa te ajudar?
“Só um primo distante chamado Raymond. Ele tem ligado com mais frequência desde que voltei a morar aqui.”
Por um breve instante, a expressão de Thomas mudou.
Seu maxilar se contraiu.
Então ele relaxou e rapidamente mudou de assunto.
Na época, eu não entendi o porquê.
Naquela mesma semana, as ligações de Raymond tornaram-se ainda mais insistentes.
“Você está saindo com alguém?”, ele perguntou. “Você não deveria estar sozinha na sua idade.”
“Estou bem.”
Você já fez um testamento? É preciso indicar um responsável caso algo aconteça.
“Eu já te disse, Raymond. Estou bem.”
Ele perguntou qual banco eu usava.
Ele queria saber se o apartamento era meu.
Ele mencionou novamente a tia Margaret, descrevendo com orgulho como havia lidado com tudo perto do fim da vida dela.