PARTE 2
O proprietário ficou boquiaberto, mas nenhuma palavra foi dita.
Essa era frequentemente a reação quando homens como ele percebiam que eu estava perto o suficiente para ouvir cada frase.
Chicago estava repleta de predadores. Alguns se vestiam com ternos sob medida e relógios caros. Alguns carregavam distintivos de autoridade. Outros ganhavam a vida extorquindo aluguel de pessoas que não tinham mais forças para lutar e chamavam isso de negócio legítimo.
Já me chamaram de coisas muito piores do que qualquer um deles.
Mas, parada ali sob a chuva torrencial, com três inaladores em uma mão e o iPhone quebrado de Emily Carter na outra, minha reputação era a última coisa em que eu pensava.
Minha atenção estava fixa no menino que espreitava por trás da mãe.
Ele não devia ter mais de seis anos.
Pequeno. Pálido. Cabelos castanhos e úmidos grudavam em sua testa. Seu peito subia e descia rápido demais, cada respiração soando como se tivesse que abrir caminho através de cacos de vidro.
Emily percebeu o senhorio olhando fixamente para além dela.
Ela se virou.
Nossos olhares se encontraram.
Por um breve instante, a confusão cruzou seu rosto.
Depois, o medo.
Essa reação não deveria ter me afetado.
Mas aconteceu.
“Sr. Vale”, disse o proprietário, forçando um sorriso trêmulo nos cantos. “Eu não sabia que o senhor tinha qualquer ligação com esta propriedade.”
“Não”, respondi.
Um alívio relampejou em seu rosto.
Por menos de um segundo.
“Ainda.”
Emily apertou o filho contra si. “Quem é você?”
Aproximei-me com cuidado e estendi a sacola da farmácia.
“Meu nome é Marcus Vale. Você esqueceu algo na loja de penhores.”
Seus olhos se voltaram para a bolsa.
Ela não fez nenhum movimento para pegá-lo.
Inteligente.
“Não deixei nada lá”, disse ela.