Parte 1
Minhas mãos estavam sempre em carne viva.
Mesmo parada no caminho de concreto rachado, eu ainda conseguia sentir o cheiro forte do desinfetante hospitalar impregnado na minha pele. Depois de quatro anos trabalhando em turnos no hospital, a clorexidina tinha se tornado meu perfume. Minhas costas doíam como vidro frágil empilhado em uma pilha muito alta, cada passo ameaçando quebrá-las após mais um turno exaustivo de doze horas no hospital universitário.
Enfiei a chave na porta dos fundos da casa da minha falecida mãe.
Antes, este lugar cheirava a canela e livros antigos. Agora, o ar estava pesado com os difusores de lavanda artificiais que minha madrasta, Victoria Hensley, comprava em grandes quantidades. Nos últimos cinco anos, meu pai, Thomas Hensley, apagou lentamente todos os vestígios da minha mãe. Seus robustos móveis antigos de carvalho foram substituídos pelos móveis espelhados e brilhantes de Victoria e pelas cadeiras de acrílico de aparência barata.
Uma risada alta e artificial ecoou da sala de jantar.