Na manhã seguinte, consegui encaixar uma entrega de café entre um turno e outro. Foi então que um homem se sentou na cadeira em frente à minha sem pedir permissão.
Ele parecia rico.
“Você é o Jeremy, certo? Um amigo meu te mencionou. Disse que você poderia usar uma renda extra.”
“Quem é seu amigo?”
“Não importa. O que importa é que eu tenho um problema e acho que você pode resolvê-lo.”
Eu deveria ter me levantado e ido embora. Em vez disso, tomei outro gole de café.
“Minha mãe está em um lar de idosos”, disse o homem. “O nome dela é Rosie. Ela tem demência. Nos dias bons, ela conta para todos que estão por perto que o filho dela nunca vem visitá-la.”
“Então, vá vê-la.”
Por um breve instante, seu olhar se desviou para a janela.
“Não posso ficar de olho nela assim”, respondeu ele. “Obrigações profissionais. Parentes fazendo perguntas. Amigos da família. Está se tornando um problema.”
Ele empurrou uma pilha de dinheiro dobrada até a metade da mesa.
“Quinhentos por semana. Visitas nos fins de semana. Chame-a de Mamãe. Finja que você é o Tim. Esse é o meu nome. Ela não vai notar a diferença, Jeremy. Ela não sabe mais quem está na frente dela.”
Fiquei olhando para o dinheiro.
“Isso não está certo, senhor.”
“Estar certo não paga as contas da sua mãe.”
A frase atingiu exatamente onde ele pretendia.
“Como você sabia sobre minha mãe?”
“Perguntei por aí. Você é uma pessoa conhecida, Jeremy. Um cara decente. Mais ou menos na idade certa. Tem a aparência adequada.”
Eu deveria ter recusado. Quase recusei.
“Só nos fins de semana?”, perguntei.
“Só nos fins de semana. Traga flores se quiser. Sente-se lá por uma hora. Sorria. Vá embora.”
Minha mão se moveu antes que minha consciência pudesse impedi-la. Puxei o dinheiro para perto de mim e senti seu peso se acomodar na minha palma como uma pequena pedra pesada.
“Quando eu começo?”
Ele quase sorriu. Por um segundo, pareceu um homem aliviado por poder transferir seu fardo para os ombros de outra pessoa.
“Sábado. E Jeremy. Não se apegue.”
Assenti com a cabeça, já consciente de que havia concordado em me tornar alguém que eu não era.
O corredor do asilo cheirava a desinfetante e rosas murchas. Minhas mãos estavam úmidas enquanto eu repetia o nome que Tim havia me dito insistentemente ao telefone na noite anterior.
Quarto 214. Bati uma vez, abri a porta e entrei.
Rosie estava sentada ao lado da janela com um cobertor fino dobrado sobre os joelhos. Ela levantou a cabeça lentamente, piscando contra a claridade da tarde.
“Mamãe”, eu disse, a palavra soando estranha na minha língua. “Sou eu. Tim.”
Por um longo tempo, ela apenas observou meu rosto. Então, sua expressão suavizou-se completamente e ela ergueu uma mão trêmula em minha direção.
“Aqui está você!” ela sussurrou.
Atravessei a sala e segurei suas mãos. Esperava me sentir inteligente e distante. Em vez disso, a vergonha subiu-me à garganta.
“Senta, senta”, disse Rosie, batendo na cadeira ao lado dela. “Você já comeu? Parece cansada.”
“Estou bem, mamãe.”
“Você está dormindo o suficiente, Timmy? Você sempre se esforça demais.”
Ninguém me fazia essas perguntas há anos. Nem depois que meu pai foi embora. Nem depois que minha mãe ficou doente.
Fiquei ali por uma hora, deixando-a falar na maior parte do tempo. Rosie falou sobre um jardim em que eu nunca tinha entrado e um cachorro que eu nunca tive, e eu assenti como se aquelas lembranças me pertencessem.
Quando me levantei para ir embora, ela apertou os dedos em volta da minha mão.
“Volte logo.”
“Sim, mamãe.”
Ao me virar em direção à porta, olhei para trás e vi lágrimas brilhando em seus olhos. Ela rapidamente se virou e as enxugou com a ponta do cobertor.
Na minha segunda visita, levei tulipas. Na terceira, trouxe uma caixinha de chocolates de caramelo que a enfermeira me disse que a Rosie gostava. Na quarta visita, cheguei numa quarta-feira, mesmo que o Tim não tivesse pago por aquele dia.
No corredor, encontrei Margaret, uma mulher delicada, de olhos penetrantes e um casaco de malha muito grande para o seu corpo. Ela me observou passar pela porta com flores na mão.
“Você a visita com frequência”, disse ela.
“Ela é minha mãe.”
Margaret inclinou a cabeça. “Ela é a pessoa mais doce daqui. Você tem sorte.”
O jeito como ela disse isso me fez desviar o olhar.
Tim telefonou naquela sexta-feira. Sua voz estava tensa.