Aceitei dinheiro para fingir ser filho de uma senhora idosa porque estava desesperado para manter minha própria mãe viva. Mas então a mulher que eu estava enganando começou a segurar minha mão como se eu realmente lhe pertencesse, e depois que ela morreu, o asilo me informou que ela havia deixado um último pedido destinado apenas a mim.

O relógio no painel marcava 11h47 quando encostei minha van de entregas na calçada em frente ao prédio da minha mãe. A chuva borrava os postes de luz, transformando-os em longas listras amarelas. Fiquei ali por alguns segundos, fazendo contas de cabeça, descontando o custo dos remédios do aluguel, chegando sempre à mesma conclusão que nunca fechava.

Peguei a sacola de compras e o saquinho de papel da farmácia, e então subi os três lances de escada.

Mamãe abriu a porta antes que eu pudesse bater, como sempre fazia.

“Você não deveria estar na rua a essa hora, querida.”

“Mãe, estou bem. Trouxe seus remédios para pressão alta e aquela sopa que você gosta.”

Ela segurou meu rosto entre as duas mãos. Suas palmas estavam quentes, o mesmo calor que eu conhecia desde sempre.

“Você parece cansado, Jeremy.”

“Estou bem, mãe.”

Eu não estava bem.