Minha mãe teve sorte. Eu estava lá para cozinhar para ela, ajudá-la com os remédios, lavar suas roupas e sentar ao seu lado quando as noites se prolongavam demais.
Mas muitas pessoas não tinham ninguém.
Após a morte dela, eu não conseguia parar de pensar neles.
Então, todas as terças, quintas e sábados, eu visitava pacientes em cuidados paliativos que precisavam de companhia ou ajuda prática. Às vezes, eu limpava cozinhas. Às vezes, eu fazia compras no supermercado. Às vezes, eu apenas ouvia.
Alguns meses antes de minha vida mudar, a coordenadora do programa me ligou.
“Temos um novo paciente”, disse ela. “O nome dele é Carl Reed. Ele tem câncer de pâncreas em estágio quatro e mora sozinho. Ele pediu especificamente por alguém que não se importasse com visitas silenciosas.”
Não pensei mais nada sobre a palavra “específico”.
Anotei o endereço e dirigi até lá na terça-feira seguinte.
Carl morava em uma modesta casa azul no final de uma rua arborizada nos arredores de Cincinnati. O jardim era arrumado, mas simples. Não havia bicicletas infantis, canteiros de flores nem carro na garagem.
Quando bati na porta, ele demorou quase um minuto para abri-la.
Ele aparentava ter por volta de quarenta anos, embora sua doença dificultasse estimar sua idade exata. Era alto, mas dolorosamente magro, com olhos cinzentos e cansados e cabelos escuros que começavam a ficar grisalhos nas têmporas.
— Você deve ser a Megan — disse ele.
Esse sou eu.
Ele me deu um breve sorriso.
Meu nome é Carl. Peço desculpas antecipadamente pela bagunça.
Olhei por cima do ombro dele para a sala de estar impecável.
Que tipo de lixo?
Aquela imaginária que me preocupou a manhã toda.
Achei isso engraçado.
Carl deu um passo para o lado e me deixou entrar.
Nossa primeira visita durou menos de uma hora. Eu esquentei a sopa, lavei dois pratos e troquei a roupa de cama dele.
Ele me agradeceu pelo menos seis vezes.
Antes de sair, vi um tabuleiro de xadrez na mesa de centro.
— Você está jogando? — perguntei.
“Ruim.”
“Perfeito. Eu também.”
Na quinta-feira seguinte, jogamos nossa primeira partida.
Ele me venceu em doze minutos.
‘Você mentiu’, eu disse.
Exagerei minhas fraquezas.
Isso ainda é mentira.
Isso soa mais respeitável.
Assim começou nossa amizade.
Apenas para fins ilustrativos.
Chá, jogos de tabuleiro e perguntas sem resposta.
Carl raramente falava sobre seu passado.
Ele disse que havia trabalhado em “consultoria empresarial”, mas nunca explicou onde. Disse também que havia viajado, embora nenhuma foto dessas viagens tenha sido encontrada na casa.
Ele não tinha fotos de família, diplomas na parede, nem lembranças emolduradas de aniversários ou feriados.
A casa parecia menos um lar e mais um lugar que alguém tinha emprestado.
Mas foi fácil conversar com Carl.
Ele fazia perguntas bem elaboradas e se lembrava de todas as respostas.
Quando lhe contei que minha mãe costumava fazer pãezinhos de canela nas manhãs de domingo, ele pediu a receita. Quando disse que detestava dirigir durante tempestades, ele consultava a previsão do tempo antes das minhas visitas e ligava se as estradas parecessem perigosas.