Em junho, ela correu atrás dele ao redor da minha mesa de cozinha, agitando o remo vermelho que ele havia lhe comprado dois verões antes. Seu nome estava escrito no cabo com uma caneta permanente, mas a tinta já estava desbotando nas bordas.
Eles já tinham andado de caiaque várias vezes e Maya adorava.
Você disse que íamos neste fim de semana, Danny.
O nome dele estava escrito na alça.
‘Eu disse: “Se o tempo permitir”‘, respondeu meu filho.
O tempo está bom. Eu verifiquei.
Daniel riu e colocou as sacolas no chão.
Ela conferiu, mãe. Ela tem onze anos e foi ela quem olhou a previsão do tempo.
Eu servi um pouco de café para ela. “Você a mima demais.”
Alguém tem que fazer isso.
Ela verificou, mãe.
Maya saiu correndo para pegar seus sapatos de água, e por um instante ficamos sozinhos na cozinha. Então vi que o celular de Daniel estava vibrando na bancada pela terceira vez.
Ele olhou de relance, franziu a testa e depois foi para o terraço dos fundos para responder.
Ele levou bastante tempo.
Ao retornar, ele evitou, de certa forma, fazer contato visual comigo.
Percebi que o celular de Daniel estava vibrando na bancada da cozinha.
‘Está tudo bem, querido?’, perguntei a ele.
É só uma coisa relacionada ao trabalho. Você sabe como é.
Eu sabia disso. Ou pelo menos, achava que sabia.
Vi como ele pegou o remo de Maya, que estava encostado na parede, e o girou lentamente entre as mãos, como se estivesse lendo algo escrito nele em uma língua que só ele conseguia ver.
“Está tudo bem, querida?”
“E?”
Meu filho olhou para cima e sorriu para mim, o mesmo sorriso que me dava desde que era bem pequeno.
“Vamos sair às 8h da manhã, mãe. O rio fica a 40 minutos daqui, então será um passeio de um dia. Eu já fiz esse passeio pelo menos doze vezes.”
***
Acenei para eles da varanda enquanto desciam a entrada da garagem, com o remo vermelho da Maya saindo do banco de trás como uma pequena bandeira.
Eu jamais poderia imaginar que Daniel voltaria sem ela.
Meu filho olhou para cima e sorriu para mim.
***
Daniel chegou em casa às 16h.
Eu estava dobrando a roupa na sala quando ouvi a porta da caminhonete bater. Depois disso, nada mais. Nenhuma vozinha. Nenhum barulho de porta de tela.
Caminhei até a janela e meus joelhos quase cederam antes que eu entendesse o porquê.
Meu filho estava parado no corredor, encharcado até os ossos, tremendo tanto que mal conseguia andar. Seu colete salva-vidas ainda estava em volta do peito. Seu cabelo estava grudado na cabeça.
Meus joelhos quase cederam antes que eu entendesse o porquê.
Maya não ficou atrás dele.
Abri a porta da frente.
“Daniel?!”
Ele olhou para mim e seu semblante se fechou.
“Ela afundou”, disse ele. “Mãe, ela afundou! Eu tentei! Tentei pegá-la! Não consegui encontrá-la!”
“O que você está falando?!”
“O rio. Maya estava lá, e depois não estava mais, e eu mergulhei nele, mergulhei várias vezes, mas não consegui…”
Afundou.