Quase imediatamente após o falecimento, informei os notários e a família. Mia só apareceu quando a parte burocrática do processo começou. No dia do funeral, ela usava um elegante casaco preto e óculos escuros, mas seus olhos não demonstravam nenhum traço de tristeza. Seu olhar estava fixo na partilha da herança.
A leitura do Novo Testamento e o lugar de paz
Uma semana após o funeral, nos encontramos no cartório para a leitura oficial do testamento. Mia sentou-se à minha frente, com os braços cruzados e um leve sorriso triunfante nos lábios. Ela sabia que a lei estava a seu favor como filha biológica e presumia que toda a herança da mãe seria dela.
O tabelião começou a ler os documentos. Como esperado, todos os bens materiais de Clara — incluindo a casa, as contas bancárias, os móveis antigos e as joias — foram legados à sua única filha, Mia.
Quando o tabelião estava quase terminando, ele virou para a última página do documento. “Ainda há um legado específico para você”, disse ele, olhando para mim.
Mia endireitou-se e olhou para mim com as sobrancelhas arqueadas.
“Minha cliente estipulou explicitamente que a grande e antiga planta de casa — a samambaia no vaso de barro que fica na estufa — deve ser legada ao seu enteado”, leu o tabelião em voz alta. “Além disso, nenhum bem foi cedido a essa parte.”
Nos últimos anos de sua vida, Clara havia contraído grandes hipotecas sobre a casa e gasto o dinheiro com presentes anônimos e dívidas pendentes. Além disso, havia enormes dívidas tributárias e empréstimos pessoais sobre o patrimônio. Como Mia havia aceitado a herança incondicionalmente, sem exigir um inventário, ela agora era legalmente responsável por todas as dívidas de sua mãe. O montante chegava a centenas de milhares de euros.
“A casa não vale nada! As contas estão zeradas!” gritou Mia, furiosa. “O advogado disse que eu sou pessoalmente responsável pelas dívidas dela! Para onde foi todo o dinheiro? Ela deve ter escondido dinheiro vivo ou títulos em algum lugar! Você sabia disso?”