A ligação caiu logo depois, mas a forma como ele disse aquilo ficou comigo por muito tempo. Parecia que o tempo tinha parado na cozinha. Coloquei o celular no balcão, mas as palavras continuaram pairando no ar. Olhei para o relógio na parede, observei o ponteiro dos segundos avançar e tentei decifrar a emoção em sua voz. Não era dramática nem urgente, não havia nenhuma crise imediata por trás disso, mas era fundamentalmente diferente — como um sinal silencioso que, como mãe, eu não podia ignorar. Sentei-me à mesa da cozinha, reproduzindo sua voz na minha cabeça e me perguntando incessantemente por que aquele simples momento parecia tão importante. Olhei para fora, para as folhas que se moviam suavemente ao vento. Era como se um instinto primitivo estivesse sendo despertado dentro de mim, uma intuição me dizendo que apenas ouvir não era suficiente…
continue na próxima página
Durante o resto da tarde, vaguei pela minha própria casa como um fantasma. Começava tarefas apenas para abandoná-las no meio, meus pensamentos constantemente voltando àquela longa respiração do outro lado da linha. Naquela noite, a inquietação havia me dominado completamente e tomei uma decisão sem sequer refletir sobre ela: reservei um voo para visitá-lo na manhã seguinte. Digitei meus dados na tela do laptop com as mãos tremendo levemente. Não lhe contei que iria. Eu conhecia seu caráter; se eu tivesse ligado, ele teria me assegurado que tudo estava perfeito e que eu não precisava me preocupar com nada. Eu queria evitar a todo custo fazê-lo se sentir sobrecarregado. Não queria dar a impressão de que havia algo de errado aos meus olhos, ou transformar involuntariamente um momento simples e terno em algo pesado ou opressor. Não se tratava de exigir respostas, mas de proximidade. Minha mala foi arrumada em poucos minutos, impulsionada por uma necessidade invisível. Quase não dormi naquela noite, encarando o teto no quarto escuro, esperando o despertador finalmente me dar permissão para sair.