Parte 1 — A Casa Que Me Ensinou a Obedecer
Cheguei em casa depois da meia-noite, tão tarde que você nunca perde a noção do tempo. A luz da varanda estava apagada. Lá dentro, a sala de estar brilhava com a luz azul intermitente da TV e o brilho intenso da tela do celular de Cole Whitman.
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Ele não se levantou quando entrei. Apenas virou a cabeça lentamente, como se estivesse esperando a fechadura travar.
— Sabe que horas são? — disse ele calmamente, de um jeito que parecia pior do que gritar: — Seu inútil!
O golpe veio antes que eu pudesse pensar em uma resposta. Minha cabeça virou bruscamente para o lado. Minha visão ficou turva. Senti o gosto de metal.
Evelyn Whitman saiu do corredor de roupão – o cabelo preso para trás, a boca contraída como se estivesse me julgando. Ela me olhou como quem olha para uma mancha que não sai.
Cole acenou com a cabeça na direção da cozinha sem desviar os olhos do meu rosto. “Vá lá. Cozinhe. Mamãe está com fome.”
E eu me mudei, porque eu sempre me mudava. Porque aquela casa havia ensinado meu corpo a obedecer antes que minha mente pudesse resistir.
O relógio do micro-ondas piscava 00:17. Meu turno tinha sido longo. Dez horas em pé. Minha lombar latejava com uma dor profunda e alarmante que vinha piorando nos últimos dias.
Afinal, eu cozinhei: frango, arroz e legumes. Comida reconfortante e simples, exatamente do tipo que Evelyn disse que preferia.