Arrumado demais.
Coordenação excessiva.
Anton não apenas direcionou a atenção federal para o meu negócio.
Ele viera por causa do hotel.
Para Emily.
Para Oliver.
Para mim.
Olhei para Nico.
“Tirem-nos de lá.”
Emily agarrou Oliver.
“Onde?”
Olhei para a cidade através do vidro.
Pela primeira vez em anos, todos os meus lugares mais seguros estavam em chamas.
Então escolhi o único lugar que ninguém esperaria.
“A igreja”, eu disse.
PARTE 7 — A IGREJA ONDE MONSTROS ORAVAM
A igreja de Santa Inês estava fechada há oito anos, mas as portas da frente ainda se abriam para mim.
A maioria das pessoas acreditava que eu havia comprado a antiga igreja porque queria transformá-la em apartamentos.
Deixei que eles acreditassem nisso.
A verdade era ao mesmo tempo mais feia e mais suave.
Minha mãe costumava rezar ali quando eu era criança. Ela acendia velas debaixo de uma estátua rachada de Maria e pedia proteção contra homens que nunca apareciam. Depois que ela morreu, comprei o lugar para que ninguém pudesse demoli-lo.
Eu nunca rezei.
Mas mantive o telhado consertado.
Isso devia valer para alguma coisa.
Entramos pela porta lateral pouco antes do pôr do sol: Emily, Oliver, Claire, Nico e três homens em quem eu ainda confiava. A chuva veio conosco, pingando de nossos casacos no chão de pedra alisado por gerações de joelhos.
Oliver olhou para o vitral.
“É aqui que Deus habita?”
Nico murmurou: “Não exclusivamente.”
Emily lançou-lhe um olhar.
Ele pigarreou. “Provavelmente sim.”
Naquele dia, Oliver sorriu pela primeira vez.
Aquele pequeno sorriso quase me destruiu.
Acomodamo-lo na antiga casa paroquial com cobertores, inaladores e um purificador de ar portátil que o médico havia enviado. Claire ficou com ele enquanto Emily e eu permanecíamos na nave sob luzes coloridas.
A igreja cheirava a pó, cera de vela e memórias.
Emily passou os dedos pelo encosto de um banco da igreja.
“Você é dono de uma igreja.”
“O prédio me pertence.”
“Essa distinção é importante para você?”
“Sim.”
Ela olhou para mim. “Por que nos trouxe aqui?”
“Porque Anton conhece meus negócios. Ele conhece meus hotéis. Ele conhece minhas casas. Ele não sabe que isso importa.”
“Será?”
Olhei de relance na direção do altar.
“Mais do que eu admito.”
Emily me observou por um longo tempo.
Então ela disse: “Conte-me sobre sua mãe.”
Eu quase recusei.
As palavras surgiram por instinto.
Não.
Não é da sua conta.
Agora não.
Mas Emily tinha sido capturada, espancada, traída, e mesmo assim permanecia ali, pedindo não dinheiro, não vingança, mas a verdade.
Então eu dei uma parte para ela.
“Ela limpava escritórios à noite. Pegava ônibus antes do amanhecer. Guardava moedas de 25 centavos em um pote para o meu lanche na escola.”
A expressão de Emily suavizou-se.
“Certa vez, no inverno, ela atrasou o aluguel. O proprietário nos trancou para fora enquanto eu estava na escola. Ela implorou no corredor.”
Minha própria voz parecia estar muito distante.
“Eu observava pela janela da escada. Eu tinha doze anos. Prometi a mim mesma que ninguém jamais decidiria se eu dormiria aquecida novamente.”
“E isso ajudou?”
Eu olhei para ela.
“Não.”
Ela assentiu com a cabeça como se a resposta fizesse todo o sentido.
“David costumava dizer que a pobreza diminuía as pessoas”, disse ela baixinho. “Eu acho que ela te tornava mais perspicaz.”
“O que isso fez de você?”
Ela olhou em direção à casa paroquial onde Oliver estava dormindo.
“Uma porta.”
Fiz uma careta.
Os olhos dela brilhavam. “Tudo me atinge primeiro. Então não o atinge.”
Eu não tinha resposta.
Porque essa era a maternidade em uma única frase.
Um telefone tocou vindo do altar.
Não é meu.
O antigo telefone fixo da igreja.
Ninguém o usava há anos.
Nico surgiu do corredor lateral com a arma em punho.
O sino tocou novamente.
Lento.
Paciente.
Caminhei até o altar e peguei o receptor.
A voz de Anton ecoou pela igreja silenciosa.
“Sentimental. Eu devia ter imaginado.”
“Você sempre odiou história.”
“Eu detestava a fraqueza disfarçada de memória.”
“Onde você está?”
“Quase lá.”
Nico caminhou em direção às portas, fazendo sinal para os homens.
Anton prosseguiu: “Sabe qual é o seu problema, Marcus? Você construiu um império baseado no medo e depois se esqueceu de que o medo precisa ser mantido.”
“Agora me lembro.”
“Não. Você é emotivo. Isso te torna previsível.”
Olhei para Emily.
Ela permaneceu completamente imóvel.
Anton disse: “Me dê as provas de Carter. Me dê a mulher e o menino. Farei com que toda essa confusão federal desapareça e deixarei para vocês apenas um hotel, um restaurante e o seu orgulho.”
“Generoso.”
“Aprendi com você.”
“Você aprendeu mal.”
Ele suspirou. “Então eu vou queimar a igreja.”
A ligação caiu.
Por um instante, ninguém se mexeu.
Então a primeira janela se estilhaçou.
Uma garrafa estourou contra a parede oposta, e as chamas começaram a subir pela madeira velha.
Emily candidatou-se à reitoria.
Peguei um extintor de incêndio atrás do altar e apaguei as chamas. Nico atirou na direção da janela quebrada. Meus homens arrastaram os bancos contra as portas.
A fumaça se espalhou rapidamente.
Muito rapidamente.
Anton tinha planejado bem.
A igreja mergulhou no caos.
Quebra de vidro.
Homens gritando.
Oliver tossindo.
Aquele som se destacava em meio a tudo o mais.
Encontrei Emily na casa paroquial pressionando um pano úmido sobre a boca de Oliver.
“Ele não consegue respirar!”, ela gritou.
A saída dos fundos estava bloqueada. As chamas subiam pelas paredes do corredor.
Claire estava ao lado deles, pálida, mas firme. “Ali está a porta do porão!”
Eu fiquei olhando para ela.
“Como você sabe?”
Ela engoliu em seco. “David me trouxe aqui uma vez.”
Emily virou-se bruscamente.
A voz de Claire tremia. “Ele disse que ia se encontrar com alguém. Eu esperei no carro. Eu o vi entrar pelo beco.”
David.
Aqui.
Minha igreja.
A igreja da minha falecida mãe.
Anton não havia encontrado este lugar.
David o havia vendido.
Aquele homem miserável continuava descobrindo novas maneiras de ser útil.
Claire nos guiou pela sacristia até um alçapão escondido sob um tapete velho. Nico o levantou, revelando degraus de pedra que mergulhavam na escuridão.
“Vai”, eu disse.
Emily abraçou Oliver com força. “Não sem você.”
Quase sorri.
“Discutir em uma igreja em chamas?”
“Aparentemente.”
Nico gritou da nave: “Chefe!”
Olhei para trás.
Em meio à fumaça e às chamas, formas se moviam perto das janelas estilhaçadas.
Os homens de Anton estavam chegando.