
Passei dez anos levando rosas brancas ao túmulo da minha esposa todos os domingos. Então, numa manhã chuvosa, cheguei em casa e encontrei o mesmo buquê sobre a mesa da cozinha, com minha filha ao lado. O que ela me contou sobre minha falecida esposa me fez perceber que eu havia lamentado a história errada o tempo todo.
Aquele domingo começou da mesma forma que todos os meus domingos haviam começado nos últimos dez anos. Eu estava parado perto da porta da frente, segurando minhas chaves, e falei com minha esposa como homens solitários fazem quando não há ninguém para responder.
“Ainda estou bonito, Evie?”, perguntei ao corredor vazio. “Você sempre mentiu melhor do que ninguém.”
Eu até dei uma risadinha discreta.
Então Anna apareceu no topo da escada. Ela tinha vinte e três anos agora, já adulta, com tinta borrada nos dedos e o cabelo meio preso. No instante em que olhei para o seu rosto, soube que algo estava errado. Sua pele estava pálida, e o pincel em sua mão escorregou e bateu com força no degrau.
“Papai”, disse ela baixinho, “talvez… não vá hoje.”
“Por quê, querida?”
Anna desviou o olhar rápido demais. “Nada. Eu só… não quero que você vá lá hoje.”
Dei-lhe um beijo suave na testa. “Não, querida. Sua mãe e eu precisamos conversar.”
Anna me observou partir como se quisesse me impedir, mas não conseguisse se obrigar a fazê-lo.
Fui de carro até o cemitério e, como sempre, parei na mesma floricultura no caminho.
A Sra. Bell sorriu assim que me viu. “Rosas brancas, Tom?”
“Com lírios e lavanda, Sra. Bell. Como sempre.”
Ela amarrou o buquê com uma fita creme. Eu havia dado à Evelyn exatamente aquelas flores no dia em que a pedi em casamento, quando ainda acreditávamos que o para sempre era algo que só o amor podia proteger.
“Você nunca perde um domingo”, disse a Sra. Bell suavemente.
“Fiz uma promessa à minha esposa.”
Então, saí dirigindo com uma das músicas favoritas de Evelyn tocando baixinho nos alto-falantes do Mustang.
No cemitério, carreguei as flores sob uma chuva cinzenta e fina. Sua lápide brilhava molhada, seu nome mais escuro sob a garoa. Toquei as letras esculpidas com dois dedos.