Algo em seus olhos – tristeza, resignação, uma suavidade que não combinava com sua aparência – me fez tomar uma decisão.
‘Josias, quero ser honesta com você. Eu não quero isso mais do que você provavelmente quer. Meu pai está desesperado. Eu não sou uma parceira adequada para casamento. Ele acha que você é a única solução. Mas se vamos fazer isso, preciso saber. Você é perigoso?’
“Não, senhorita.”
‘Você é cruel?’
“Não, senhorita.”
Você vai me machucar?
Nunca, erre. Juro por tudo que me é caro.
Sua sinceridade era inegável. Ele realmente acreditava no que dizia.
Tenho outra pergunta. Você sabe ler?
A pergunta o pegou de surpresa. Um lampejo de medo surgiu em seu rosto. Ler era proibido para os escravos na Virgínia. Mas, após um longo silêncio, ele disse suavemente: “Sim, senhorita. Eu aprendi sozinho. Sei que é errado, mas… eu não consegui evitar. Os livros são portais para lugares que eu nunca visitarei.”
O que você está lendo?
Tudo que encontro. Jornais velhos, às vezes livros que pego emprestado. Leio devagar. Não aprendi muito, mas leio.
Você já leu Shakespeare?
Os olhos dele se arregalaram. “Sim, senhorita. Há um exemplar antigo na biblioteca que ninguém toca. Eu o li ontem à noite, quando todos estavam dormindo.”
Quais partidas estão sendo disputadas?
— Hamlet, Romeu e Julieta, A Tempestade. — Sua voz soava entusiasmada, apesar de si mesmo. — A Tempestade é a minha favorita. Próspero governando a ilha com magia. Ariel ansiando por liberdade. Caliban sendo tratado como um monstro, mas talvez mais humano do que qualquer outro. — Ele parou abruptamente. — Com licença, senhorita. Eu falo demais.
— Não — respondi com um sorriso. Pela primeira vez naquela estranha conversa, sorri genuinamente. — Continue. Conte-me sobre Caliban.
E então algo extraordinário aconteceu. Josias, o enorme escravo conhecido como o Bruto, começou a falar sobre Shakespeare com uma inteligência que teria impressionado até mesmo professores universitários.
Caliban é chamado de monstro, mas Shakespeare nos mostra que ele foi escravizado, sua ilha roubada e a magia de sua mãe ignorada. Próspero o chama de bárbaro, mas Próspero chegou à ilha e tomou posse de tudo, inclusive do próprio Caliban. Então, quem é o verdadeiro monstro?
Você acha que Caliban é um personagem com o qual você se identifica?
“Eu vejo Caliban como um ser humano, tratado como menos que um ser humano, mas ainda assim um ser humano.” Sua voz vacilou. “Assim como… assim como os escravos.”
Terminei.
“Sim, senhorita.”
Conversamos por duas horas sobre Shakespeare, livros, filosofia e ideias. Josiah era autodidata; seu conhecimento era fragmentado, mas ele tinha uma mente brilhante e uma clara sede de saber. E, enquanto conversávamos, meu medo desapareceu.
Esse homem não era um bruto. Era inteligente, gentil, atencioso, aprisionado em um corpo que a sociedade considerava apenas o de um monstro.
‘Josiah’, eu disse finalmente, ‘se fizermos isso, quero que você saiba de uma coisa. Não acho que você seja um bruto. Não acho que você seja um monstro. Acho apenas que você é alguém preso em uma situação impossível, assim como eu.’